Conheci Dirceu em uma manhã de terça-feira, caminhando pelas
ruas do meu bairro numa tarde de outono, pisando em folhas secas e observando
todo aquele ambiente seco ilustrando perfeitamente a estação, quando me deparei
com um homem de meia idade, sentado em um banco de madeira, com um jornal
fechado em seu colo e chorando. Me sensibilizei com sua situação e sem deixar
minha curiosidade de lado, resolvei me sentar ao lado deste homem e perguntei o
seu nome. Limpando as lágrimas dos olhos, ele me olhou de uma forma fixa, como
se pudesse ver até a minha alma e me respondeu: “Dirceu!”
Perguntei ao Sr Dirceu o que havia acontecido para que ele
estivesse sentado ali aos prantos e se eu poderia ajudá-lo em algo. Mas o homem
me parecia tão sábio e inteligente, que ao mesmo tempo que eu lhe fiz essa
pergunta, eu me perguntei se realmente eu teria altivez para ajuda-lo de alguma
forma, independente do problema. Mas com toda a sua simplicidade, Dirceu ergueu
sua cabeça, abriu um belo sorriso e me disse: “- Quisera eu, que apenas uma
pessoa pudesse me ajudar, mas os meus problemas não são meus, choro aqui meu
caro amigo pelos problemas do mundo e estou em prantos tentando superar o fato
de viver em um lugar onde tudo que se valoriza é o próprio bem-estar.”
Ao ouvir as palavras de Dirceu, comecei a pensar no que ele
havia dito. Com um único movimento, me ergui daquele banco e prometi ao Sr
Dirceu que faria algo, não que mudasse o mundo, mas pelo menos tentaria
encontrar uma forma de realmente transformar a sociedade. Logo me despedi de
Dirceu e o agradeci pelas simples e belas palavras.
Chegando em meu apartamento sem conseguir esquecer o rosto
daquele homem, tão puro e honesto, as lágrimas escorrendo em seu rosto por
causa dos problemas do mundo. Sentei em meu sofá, apoiei os cotovelos nos
joelhos e com as mãos tapei o rosto, em busca de um pensamento ou uma idéia que
realmente pudesse fazer a diferença. Depois de alguns minutos refletindo na
mesma posição eu percebi que o mundo não poderia ser mudado, mesmo com pessoas
como Dirceu se sensibilizando, ninguém poderia mudar o mundo. O ser humano vive
em processo de evolução e por mais que nos esforcemos, nunca vamos conseguir
acelerar este processo.
Porém eu poderia sensiblizar mais pessoas, assim como Dirceu
me sensibilizou e isso poderia fazer pelo menos alguma diferença na região onde
vivo. Com essa idéia em mente, corri até o meu escritório, apanhei uma folha em
branco e uma caneta. Comecei a escrever uma carta, qual eu tiraria várias
cópias e colocaria na caixa de correio de cada morador do meu bairro.
“ Queridos amigos e
vizinhos,
Esta manhã eu me
deparei com uma situação muito comovente, sensível e que me fez pensar no que
poderíamos estar fazendo para ajudar mais os nossos próprios vizinhos. Me
deparei em frente ao mercado do Sr Manoel com um homem de meia idade, que chorava
feito uma criança, logo imaginei que ele tivesse sido roubado ou tivesse
perdido algum ente querido. Quando me sentei ao seu lado e perguntei o que
havia acontecido, ele me respondeu que chorava pois a vontade dele era ajudar a
todas as pessoas do mundo que necessitam, que ele chorava pois o alcance de
suas boas ações não tinha a proporção do mundo e ele estava deprimido por não
ter a grandeza de fazer mais.
Então meu queridos,
os convido a pensar no que andam fazendo para ajudar o próximo, pois cada boa
ação gera uma nova e isso se torna uma eterna corrente. Cada gesto de bondade,
que seja um bom dia, um aperto de mãos, um prato de comida ou até mesmo um
abraço. Tudo isso se torna uma grande corrente e assim como este senhor me
comoveu e me inspirou à escrever para vocês, espero que vocês leiam esta carta
e repassem estes gestos de gratidão. Quem sabe assim este senhor que estava
choroso por se sentir impotente e pequeno, não tenha desencadeado uma grande
mudança?
Desde já Agradeço a
todos,
Tenham um excelente e
maravilhoso dia!”
No dia seguinte, fui até a papelaria, tirei várias cópias
desta carta, envelopei todas elas e dentro de cada envelope eu anexei um grão
de arroz. Durante a semana eu fui de porta em porta entregando todas essas
cartas, coloquei em caixas de correios, nas mãos dos passantes e até mesmo para
pessoas dentro de carros. Quando todos os envelopes acabaram eu estava com a
mesma sensação do Sr Dirceu, a sensação de querer fazer mais, porém
incapacitado e limitado.
Algumas semanas depois eu me deparei com Dirceu novamente no
mesmo banco e dessa vez quem me parou foi ele, com apenas um movimento se
levantou e ficou de pé em minha frente. Quando me assustei com o rápido
movimento do homem ele me perguntou:”- Ei, foi você que entregou todas aquelas
cartas com o grão de arroz?” Eu automaticamente respondi que sim e logo fiquei
com a expressão abatida. Dirceu meio curioso me perguntou qual o motivo do grão
de arroz. Respondi que cada grão de arroz daqueles simbolizava uma pessoa, que
sozinho não serviria para nada, porém se eu conseguisse unir todos aqueles
grãos que eu distribui, eu poderia construir um pacote de arroz e perguntei
para Dirceu: “Quantas pessoas um pacote de arroz pode alimentar?”
Dirceu sorrindo me disse que havia adorado a minha idéia e
acreditou que poderia dar muito certo, mas ele viu em minha expressão que eu
não estava tão contente. Logo me perguntou se eu nao confiava que minha idéia
poderia dar certo. Respondi à Dirceu que poucos dias depois de ter entregue os
evenlopes, eu vi muitas de minhas cartas jogadas pelos lixos, nas ruas e
boeiros. Falei à Dirceu que quando tentamos ajudar o mundo, somos agraciados
com uma sensação de impotência gigantesca e desmotivadora. As pessoas não se
importam mais.
Dirceu retrucou, segurou em meu ombro com força e disse:”-Meu
caro amigo, como você mesmo citou em sua carta, tudo se trata de uma corrente.
Eu sem mover um dedo e com apenas algumas palavras te comovi e motivei-o a
fazer tudo isso o que fez. Imagine agora a quantidade de cartas que você
distribuiu, por mais que a maioria não tenho dado importância, pense na
quantidade de pessoas que também se sensibilizaram e acabaram continuando com
essa corrente. Então tudo se trata apenas de uma minoria e essa minoria fazendo
sua parte, comove uma outra minoria e que logo acabará se tornando uma maioria.”
Emocionado, agradeci à Dirceu por novamente abrir a minha
mente e voltei correndo até minha casa, sentei novamente em meu sofá e resolvi
que durante todos os dias da minha vida eu daria um prato de comida para
alguém, ou um aperto de mãos à um desconhecido, ou um abraço à alguém que
estiver chateado e até mesmo um bom dia para o motorista do coletivo. Por que
como Dirceu me ensinou, uma simples atitude pode gerar um enorme resultado.
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